Como saberei se estou em trabalho de parto?

Era sexta-feira, senti que estava para breve. Fui a três supermercados diferentes e a duas lojas, precisava comprar tudo o que precisava. Gelatinas vegetais, barras de cerais, sumos, velas, mangueira… a lista era longa. Precisava de tudo o que tinha listado como necessário para o dia do parto, e para as horas seguintes, para sentir que estava pronta. O dia passou num instante, à noite fui jantar à Gafanha da Encarnação com um amigo e uma amiga que tinha vindo passar cá uns dias, vinda de Inglaterra. Avisei-a que tinha de ser nessa noite, se me queria ver grávida, já não a via há um ano ou dois. A viagem para o restaurante é uma constante de buracos, lombas, tampas de esgoto elevadas ou demasiado baixas. Senti o Afonso quietinho, de vez em quando lá se ajeitava lá dentro, mas sentia que tinha descido. Finalmente havia espaço para eu poder comer à vontade. Comentei durante o jantar que tinha a sensação que o Afonso ia nascer ao fim-de-semana, naquele fim-de-semana, que precisava comer bem para ter força, muita força.

Nessa noite descansei o habitual, uns pares de horas, sem posição. Durante o dia de Sábado o cansaço já se fazia sentir, eram quase 39 semanas. Passei a tarde a costurar toalhitas reutilizáveis que iria usar para limpar o rabito do bebé que estava a caminho. O João estava no computador de volta de um artigo científico que tinha poucos dias para terminar. Eu sentia aquele aperto no peito de querer fazer o ninho, antes que fosse tarde. Eram 17h e senti uma contração, era diferente das que tinha sentido até então. Passados alguns minutos, outra. Comecei a ir para a bola de pilates descontrair, mas muito relaxadamente, e assim que terminava o desconforto, eu voltava à costura. Pedi ao João para me ir dizendo as horas, estavam espaçadas de 20 minutos. Quando cheguei àquele ponto que já não conseguia sentar na bola, o desconforto de sentar já era maior que o alívio da posição, senti que era altura de repousar. Sem alarmar o João, fui para um dos quartos da casa e deitei-me. Como era um estado novo para mim, que me deixava na dúvida se era ou não trabalho de parto, decidi questionar algumas amigas que estavam online nas redes sociais. Todas me responderam “quando for a hora, tu saberás”, e eu pensava “mas como vou saber?”

Decidi descarregar uma app para cronometrar e detalhar a intensidade das contrações. Mas as minhas contrações não eram como descritas nas Aulas de Preparação para o Parto: um minuto de agonia seguido de descanso e alívio. Não era assim que eu sentia. Apontei sempre que sentia um desconforto grande, seguido de alguns momentos em que já me conseguia mexer sem dificuldade. Progressivamente o tempo sem desconforto foi diminuindo: 15, 10, 7, 5 minutos passavam e lá voltava ele. Eram 23h e estavam de 5 em 5 minutos, significava que a dilatação estava a iniciar. Eu estava consciente disso, fez-me bem ler tanto sobre o assunto. Era hora de ir para o banho, precisava relaxar, a noite ia ser longa.

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Quando passei no corredor, vi o João a conversar com o senhorio por causa de uma fuga de água que estava a acontecer na cozinha, e a máquina de secar estava fora do sítio. Ele dizia-lhe com firmeza: “Nós precisamos disto resolvido, ela faz 40 semanas na próxima semana. Não dá para esperar.” Não me aproximei, e pensei: “Não é hora para essas preocupações, mal ele sabe que não é na próxima semana… Mas ainda bem que ele está ocupado…”

Estava há duas horas com contrações de 5 em 5 minutos dentro de água, na banheira de casa. Tal como combinado telefonei à parteira. O telemóvel não chamava, algum problema com a rede. Voltei para o banho, o João estava no quarto a dormir, tinha ido diretamente descansar sem se aperceber do que se passava. Duas horas mais tarde tentei telefonar de novo à parteira, o desconforto estava a passar a ser uma dor intensa. Deparei-me com o mesmo problema de rede, mas agora era mesmo necessário falar com ela. Insisti e chamou, caso contrário teria ligado ao marido ou para o telefone fixo, estava confiante que não ia ter problemas em conseguir falar com ela.

Quando a Mary atendeu, disse-lhe que estava há 4 horas em trabalho de parto ativo, pedi que viesse, ela tinha ainda alguns quilómetros de estrada a percorrer. O João apercebeu-se da chamada e veio ver o que se passava comigo. Emocionou-se ao ver-me a fazer básculas à bacia e disse “Vai nascer hoje, não vai esperar que eu acabe o artigo!” ao que eu respondi “A natureza é assim”. Deu-me o corpo dele para eu me apoiar, e experimentou fazer-me as massagens à zona lombar que aprendeu com o livro Midwife Companion, que prometiam aliviar as dores do trabalho de parto. E não é que ajudam mesmo?!

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