Água, o elemento do parto

Báscular, para uma grávida, é dançar sem música ao ritmo das contrações. Assim fiz, até sentir necessidade de me ajoelhar no chão, pois sentar na bola de pilates já era impossível. Senti um líquido correr pernas, a bolsa rebentara. Ficamos pasmos a olhar para o tapete encharcado. Fiquei surpreendida por ter acontecido antes da parteira chegar, mas logo soceguei, sabia que tudo estava a avançar cautelosamente. Chutei o tapete para o lado, apoiei os joelhos numa toalha branca lavada.

A parteira ligou, estava a estacionar. Ela já sabia bem onde era a casa, tínhamos tido o cuidado de combinar a última consulta duas semanas antes ao domicílio. Entrou, veio em direção a mim, abraçou-me junto ao coração, sem fazer notar que eu estava nua. Balançou comigo, disse-me ao ouvido “Everything is going to be ok, be strong!”, suspirei acalentada e respondi “this hurts so much, help me having my baby”. Pediu-me para verificar com quanta dilatação eu estava, com um toque não intencionalmente doloroso mediu 5cm, foi uma boa evolução para 4 horas. Com o doppler fetal ouvimos que o bebé estava tranquilo.

Com ela não veio a piscina que pedi que trouxesse, só tinha uma e tinha ficado noutro domicílio onde o parto estava latente há uns dias. Parir dentro de água tinha sido um sonho desde sempre, mas isso não me abalou, tudo estava a correr bem, tudo o que eu precisava estava ali e nada iria me abalar. Eu sabia que a média de um primeiro parto são de 8 a 12 horas de parto ativo, e eu já tinha feito metade da dilatação e metade do tempo mínimo, mas não me preocupei a fazer contas ao tempo. As dores eram muitas, voltei ao banho de imersão.

Sem termos combinado nada, desde que a Mary chegou, os três passamos a falar em inglês, sentia-me mais à vontade assim. Ela pediu para o João ligar o aquecimento, para eu estar mais confortável. Tinhamos comprado um aquecedor de parede e instalado no corredor mesmo em frente à porta da casa de banho, mas por algum motivo não estava a funcionar, o João não tinha lido o manual de instruções e não sabia como o programar. Então foi buscar o ventilador, não era a melhor opção de aquecimento a longo prazo, mas para aquela situação, era a melhor. Estava confortável dentro de água, e aqueci-a finalmente fora d’água também.

A Mary sugeriu que eu comesse algo, mas não estava com apetite pelas barras de cereias que tinha à mão, então pedi ao João “bring me one of the jellies”. Quando ele chegou à casa de banho com um frasco de compota, a minha resposta foi “referia-me a uma das gelatinas que estão no frigorífico! estavas a achar que eu ia comer compota às colheres?”, foi a gargalhada geral. Finalmente comi a dita gelatina de melância, e aquele sabor vai sempre me lembrar o meu parto.

Eu estava num estado pleno comigo e com o bebé, naquela fase não queria que tocassem, falassem. O João estava confuso, dei com ele impressionado a ver os coágulos de sangue a boiar e a querer renovar a água. Eu senti que precisava sair da água, sentei-me na sanita, olhei para o fundo e pensei “será que é periogoso eu estar aqui? não, ele não vai sair assim tão fácil e cair de cabeça…”. Relaxei, naquele momento sentar ali era mais confortável do que em qualquer poltrona alcolchoada.

Ouvi um estouro e ficamos sem luz, a lâmpada fundiu com tanto vapor de água. Rapidamente o João trouxe o candeeiro led, solar e com pilhas carregadas, duraria 3 ou 4 horas no máximo. Mas aquela luz era amarela, quente, relaxava. Ali sentada na sanita entrei numa nova fase do parto, em que eu apagava por breves instantes. Eu não me aperecebia de que o meu queixo encostava ao peito e toda eu descansava, mas quando voltavam as contrações, eu valorizava aqueles segundos que tinha tido a recuperar forças. Tomei consciência dessa fase quando num desses momentos despertei ao ouvir o João perguntar à parteira “Ela adormeceu?”, e ela pediu-lhe para não falar, para aproveitar, que aquele momento era importante demais.

O desconforto e as dores aumentaram progressivamente, já não haviam momentos de relaxe, eu gemia de dor com tanta intensidade que é indiscritível, sem pensar se estaria a incomodar os vizinhos, se alguém se assustaria e chamaria a polícia. Eu estava com vontade de puxar, tinha aquela “vontade de fazer cocó” que todas as mães me contaram, e sim, eu já tinha evacuado antes do inicio do parto ativo como manda o livro. Disse à parteira desesperada “I’m in so much pain, I’m going to die!” e ela respondeu firme “No, you won’t!”. Meia indecisa decidi entrar na banheira novamente, mas quando me pus de pé saiu o rolhão mucoso, avermelhado e sem qualquer margem para dúvida do que seria. Voltei atrás, decidi ficar fora de água, nas toalhas espalhadas no chão.

Tudo estava a correr pela ordem certa, a um bom ritmo, mas ao olhar-me nos olhos, ao ver as minhas dores demasiado intensas, ela apercebeu-se que algo se passava. Pediu para verificar a dilatação, estava com 8cm. Disse-me para não gastar todas as energias a puxar, e para eu começar a bascular com a perna esquerda levantada. Fiz o que ela me disse, mas nada mudou. Eu confiava nela, mas precisava de uma explicação, então a Mary explicou que o bebé devia estar a empurrar-se para o lado do meu intestino, em vez de para o lado do canal vaginal. Eu imediatamente perguntei o que podia fazer para o ajudar! Ela embora séria, conseguiu manter o animo leve e disse-me que ele precisava de indicações, explicou-me que era necessario fazer uma rotação da cabeça dele, que precisava inserir 3 dedos até lhe chegar e que isso iria me doer. Questionou-me se eu preferia que fosse ela a fazer naturalmente, ou se eu preferia ir ao hospital e tomar alguma forma de analgesia. Alertou-me que se eu fosse, ela não poderia entrar comigo, nem fazer nada mais como parteira. Eu sem hesitar respondi “Do it yourself, I can handle it”.

Deitei na cama, numa posição semelhante à litotomia/ginecológica, ela fez a rotação e eu confesso que não senti dor em particular, as dores que eu tinha tido até então eram muito mais fortes. Aquele movimento fez iniciar o expulsivo, durante uma hora senti o bebé subir e descer, abrindo caminho, avançando ao milimetro. Aquela sensação de “está quase, mas ainda não está” começava a deixar-me impaciente.

 

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